Em uma conversa reveladora com o canal Casal Metal, a cantora e compositora Isa Rody abre o jogo sobre sua trajetória como a primeira voz e personificação da personagem Lilith na banda Dogma. Responsável por moldar a identidade visual e vocal que lançou o projeto ao sucesso com o álbum Dogma (2023), Isa detalha os bastidores de sua saída e a atual batalha jurídica pelo uso indevido de sua imagem e voz em videoclipes e apresentações ao vivo. Em meio ao embate sobre direitos autorais e as complexidades de contratos na indústria fonográfica, a artista também compartilha o processo de ressignificação de sua carreira solo, marcada pelo lançamento do single “Changes”, uma releitura da música do Black Sabbath e por uma nova fase criativa estabelecida diretamente da Alemanha.
O Passado e a Identidade de Lilith
Casal Metal: Bem, vou começar com as perguntas de um primeiro bloco falando um pouquinho em relação ao seu passado, né? O Dogma, que você foi a primeira Lilith, né?
Isa Rody: Isso, exatamente.
Casal Metal: E a gente sabe que você ajudou a moldar a identidade dessa personagem. Até onde a sua liberdade criativa, o conceito das freiras mascaradas, a estética, teve uma influência direta sua ou isso já existia e a gestão da banda já trouxe?
Isa Rody: Então, essa ideia de ser mais mascarado e a questão até de vestimenta, isso foi algo que já veio da produção anteriormente. O minha colaboração veio diretamente na parte musical, principalmente, e de interpretação da personagem. Então, eu estudei bastante a personagem antes de ir lá me apresentar e, por exemplo, gravar o clipe ou até sequer cantar a primeira canção. Por exemplo, a minha audição foi com “Father I Have Sinned” e eu já trouxe características vocais um pouco mais extremas, como o growl no final da música; era algo que não tinha antes, não era o planejado. Mas eu trouxe como característica da personagem sendo a Isa Rody. E isso foi ajudando a moldar o que foi a Lilith 1. Estudei como ela se portaria, quais seriam os olhares, como seria ela falando… tudo isso foi em colaboração comigo, onde eu trouxe essa parte do meu estudo pessoal para a personagem.
Casal Metal: A gente percebe que você é muito performática, né? Você se expressa muito com a câmera, conversa muito com o público. A gente pode acompanhar isso no seu Instagram.
Isa Rody: Sim, não, é muito legal. Fico feliz de, apesar de ter saído do Brasil e estar fazendo isso estando mais aqui fora, a fanbase do Brasil é muito importante para mim, é essencial. E eu adoro, né? Eu sou a pessoa que defende o Brasil aqui fora.
Formação e Atuação
Casal Metal: A gente consegue perceber que você tem essa veia de atuação. Uma curiosidade que a gente tem: você chegou a fazer algum curso de atuação, algo na área de teatro?
Isa Rody: Olha, eu nunca cheguei a fazer oficialmente, mas tudo o que tinha de evento em escola, um masterclass de atuação, ou ter que inventar um personagem e ir na frente da sala se apresentar, cantar… tudo o que tinha envolvimento com arte eu fazia desde muito criança. Tem até vídeos meus, com uns 6 anos, chamando os vizinhos no condomínio para fazer apresentação. Eu ia lá, inventava uma personagem, fingia que estava cozinhando, cantava, parava, fingia que tinha um cachorrinho… Então, desde criança eu sempre deixei esse lado da criatividade interpretativa tomar conta, e isso com certeza formou a artista que eu sou hoje.
Casal Metal: Então desde criança você era aquela guria que tomava a frente, chamava os coleguinhas para gerar alguma coisa, desenvolver um roteiro?
Isa Rody: Sim, sim. E eu sempre gostei de escrever também. Então eu inventava história quando tinha trabalhos de escola que teriam que ir para o lado artístico. Sempre tinha música envolvida no meio, independente da língua. O inglês que eu tenho hoje a música me ajudou. Eu sempre gostava de criar um roteiro e falar: “ah, eu acho que você fica legal aqui, eu faço isso, aquilo”… e nisso se formava um teatrinho super legal. Mas oficialmente, aulas de teatro eu nunca cheguei a fazer. Mas participei de uma masterclass quando fiz Belas Artes no Paraná, um ano antes de vir para a Alemanha. Foi aí que eu também comecei a desenvolver a personagem Lilith.
Casal Metal: Então você literalmente criou a história dessa personagem.
Isa Rody: Sim, houve colaborações, como disse, veio um roteiro da ideia musical, mas como foi a personagem por si só, no início, foram características minhas que tornaram aquela Lilith que vocês conhecem.
Saída da Banda e Questões Jurídicas
Casal Metal: Muito massa. E você falando do desenvolvimento dos vocais, as linhas melódicas… no caso, você que incrementou o growl, incrementou alguns elementos que não tinham ali. Você teve toda essa liberdade e trouxe esses elementos que fizeram o grande sucesso, como você citou “Father I Have Sinned”. Então tudo ali tem o seu dedinho, tudo ali é Isa.
Isa Rody: Isso, toda a parte de vocal extremo, as partes de growl e dos screams que são utilizados até hoje, de maneira indevida, mas são utilizados, foram tudo características que eu, Isa Rody, trouxe para as músicas e para a banda na época.
Casal Metal: Eu queria muito falar dessa parte porque você fez uma carta muito sincera no seu Instagram para os fãs e foi muito clara. Mas a gente queria trazer aqui um pouco das suas impressões, porque tem a sua voz no álbum Dogma (2023) e também tem performances suas em videoclipes. Quando você resolveu sair do projeto — e você que resolveu sair — e você teve esse contato (porque acredito que depois veio ao seu conhecimento a questão dos seus vocais ainda no álbum), e também a sua cara, porque a personagem é a sua cara, o molde da máscara da personagem é a Isa Rody… Como você reagiu quando viu isso pela primeira vez?
Isa Rody: Eu fiquei realmente muito surpresa quando vi que todo o trabalho que eu tinha feito, apesar de eu já ter saído da banda fazia mais de um ano na época, eles terem sido mantidos. Houve uma tentativa de renegociação que não foi feita. E eu achei que… não sei, como a voz do clipe de “My First Peak” e “Forbidden Zone” é outra, porque misturaram a voz com a pessoa que cantou o álbum, mas continuaram utilizando a minha imagem. Então tudo o que você vê de interpretação e da personagem no clipe, na verdade sou eu. Eu fiquei realmente meio chocada porque não fazia sentido, aquilo dali não era uma verdade a ser mostrada para o público. Fiquei muito surpresa porque muitas pessoas vieram atrás de mim; na época já estava rolando rumores sobre o meu nome na banda, porque a ideia inicial era ser totalmente anônimo. O que eu fiquei ainda um pouco mais surpresa foi a questão dos shows ao vivo, na verdade, onde tínhamos os meus corais, os meus growls e os meus screams sendo dublados o tempo todo.
Casal Metal: Aqueles playbacks ali são seus, né? Até hoje?
Isa Rody: Exato. Até hoje. Então isso foi algo que pessoas que foram nos shows filmaram e: “Nossa, Isa, mas esse daqui é o growl de ‘Father I Have Sinned’. Se eu colocar o clipe e ver o que está sendo filmado no show, é exatamente a mesma coisa, eles colocaram um sample da sua voz”. Quando comecei a perceber isso, eu realmente fiquei chocada, porque até então tinha dado um tempo na minha vida que eu não tinha mais ouvido falar, estava seguindo com os meus outros projetos aqui na Alemanha e, até então, estava ok. Mas quando isso apareceu, realmente foi um choque para mim.
Casal Metal: E quando isso aconteceu, você chegou a entrar em contato imediato com a gestão da banda?
Isa Rody: Sim, foi aí que teve a tentativa — mais uma tentativa — de renegociação, que também não foi feita porque não houve uma conversa direta a partir daí. Também foi feito acompanhamento com a assessoria jurídica. Infelizmente, eles continuam utilizando de forma indevida esses vocais e a imagem se mantém lá. Então, esse lado está sendo agora resolvido 100% pelo lado jurídico.
Casal Metal: A gente vê vários fãs comentando da banda que grande parte do sucesso desse single é devido ao seu toque pessoal.
Isa Rody: Sim, foi isso que eu também escrevi na minha carta: que se os fãs gostaram dessa criação, eles podem esperar algo muito legal vindo da minha parte, Isa Rody, sem essa máscara, sem ter envolvimento com a banda. Para os meus futuros trabalhos, os fãs podem com certeza esperar algo nessa linha artística, interpretativa, com muitas variações melódicas. Eu também estou fazendo mais aulas de vocais extremos aqui na Alemanha, com professoras daqui. Então está bem legal. Vocês podem esperar que virão coisas muito legais aí para esse ano ainda.
Contratos e o Cenário Musical
Casal Metal: Como você falou do contrato… porque quando você estava ali fazendo todas essas criações, aconteceu aquele período horrível de pandemia. O mundo parou, o show business parou total. E você não chegou a fazer shows. Como foi a proposta da banda em relação a shows? Eles deixaram de forma clara a questão das suas criações e o que você iria elaborar, tanto de artes visuais quanto vocais e melodias?
Isa Rody: Como o contrato desde o início foi para músico de sessão, as coisas não ficaram claras e corretas como deveriam ter sido antes de eu ter ido gravar o primeiro clipe, por exemplo. Então, a recomendação que eu daria aqui é sempre analisar o contrato dos pés à cabeça, tudo certinho se ele é adequado com o tipo de trabalho que você vai fazer. Porque quando não está muito claro, e de preferência em uma língua que você entenda muito bem… eu aprendi isso estando aqui na Alemanha, estudando contratos de trabalho mesmo. Nesse caso, como foi na América Latina, foi no Uruguai, o contrato foi inteiramente em espanhol e na época tinham termos que seriam muito mais fáceis de serem entendidos se estivessem também em inglês, por exemplo. Então esse já foi um ponto que, se tivesse acompanhamento jurídico desde o começo, já teria sido analisado como um ponto a menos, entendeu? Então eu diria que a questão contratual ela é muito importante para você ver desde o início. É uma dica que eu dou para músicos e artistas que estão começando agora.
Carreira Solo e Changes
Casal Metal: Você é a mulher que trouxe essa releitura de Changes. Fala um pouquinho sobre isso, que a gente consegue sentir uma coisa muito visceral nesse crescimento.
Isa Rody: Eu acredito que o Changes foi muito importante em ser lançado nesse momento. É uma versão que eu já havia pensado há muito tempo de fazer, mas eu queria criar realmente a versão que trouxesse quem eu sou e o momento que eu estou passando na minha vida. Então até houve a readaptação da letra, de “She was my woman” para “She was my young one”, remetendo justamente a essa transição de ter deixado a menina Isabella — não a criança interior, porque a criança interior é muito importante de se manter, ela é o nosso lado criativo — mas o lado menina, ele foi embora para deixar a mulher que está aqui agora prevalecer. Então eu ressignifiquei essa música no momento de transição da minha vida que eu acredito que foi muito importante. Quando você coloca a música e ela tem o significado que vem de forma profunda de você, as pessoas conseguem sentir isso na hora de ouvir, na emoção. E a tendência é essa. Logo vai sair nos streamings também, então estou bem animada. As pessoas estão me dando feedbacks muito bons em relação ao videoclipe e tudo mais.
Casal Metal: Arranjos belíssimos na música…
Isa Rody: Sim, quis trazer essa parte orquestral. Fiz em colaboração com um produtor daqui da Alemanha, o Martin Kissen. Eu sempre fui nessa ideia de falar as ideias, sentar… porque eu também tenho piano aqui, eu também componho, né? A forma que eu escrevo as minhas canções elas sempre vêm a partir do piano e letra. E a partir disso, como uma artista solo, você tem que desenvolver e pensar nos outros instrumentais. Como, por exemplo, eu não toco bateria, eu gravo lá com a boca mesmo: “ah, a ideia da bateria é fazer isso, aquilo”. Mas tendo a base que é o essencial do piano e voz, acredito que já é uma base muito legal para a criação da música. Sentei com ele, falei das ideias, juntos a gente criou… “ah, quero colocar orquestra aqui, acolá, vamos criar uns corais”… ele também deu ideia de harmonia. Foi um trabalho em conjunto bem legal e acredito que conseguiu realmente demonstrar muito bem o que eu gostaria para todo mundo.
Casal Metal: A gente consegue perceber que é algo muito orgânico. Não é algo automático, que de certa forma se contrapõe à proposta que tinha nesse trabalho anterior do Dogma. O que a gente espera e se você puder dar algum spoiler da sua carreira solo?
Isa Rody: Com certeza vocês podem esperar essa versatilidade vocal. No meu novo projeto, que já está em andamento, o spoiler que eu posso dar é que eu estou nesse processo criativo onde eu estou pegando composições que eu já tinha e elas estão se tornando música de verdade. Este ano, por exemplo, eu sou bem a old school: eu tenho meu caderninho com caneta, saio caminhar… aqui atualmente estamos com -5°C. Janeiro de 2026 está frio aqui este mês. Eu saí caminhar esses dias e foi muito legal porque estava tudo nevado e isso me inspira muito na hora de escrever. O frio me traz mais inspiração do que o verão. Então eu tento deixar essa energia mais intrínseca, essa coisa mais retrospectiva transparecer na hora de escrever. Pode ter certeza: vai sair material novo. Estou curtindo esse momento de criação.
Casal Metal: Queria agradecer pelo seu tempo, por essa oportunidade de falar com você.
Isa Rody: Eu que gostaria de agradecer pelo convite, pelo tempo e por essa conversa tão boa e fluida.
Casal Metal: BH te espera! BH gosta de você.
Isa Rody: Com certeza! Muito obrigada.
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