O Tuatha de Danann, banda brasileira pioneira em mesclar o peso do Heavy Metal à música tradicional celta, está completando 30 anos de estrada. Originária de Varginha, Minas Gerais, o grupo surgiu em 1994, quando então se chamava Pendragon, despontando na cena underground e alcançando reconhecimento internacional. Com uma discografia que conta com álbuns marcantes como Tingaralatingadun (2001) e o mais recente The Nameless Cry (2023), a banda consolidou seu nome no Folk Metal e Celtic Metal, destacando-se pela incorporação de instrumentos peculiares ao gênero, como tin whistles e gaitas de fole.
A trajetória do Tuatha de Danann é marcada por apresentações em grandes palcos pelo mundo, incluindo o renomado Wacken Open Air na Alemanha. Apesar da forte influência irlandesa em sua sonoridade e lírica, a banda conseguiu manter sua identidade brasileira. O grupo, que ao longo dos anos passou por diversas formações, atualmente conta com Bruno Maia, Giovani Gomes, Raphael Wagner e Rafael Delfino. Em 2024, a banda sofreu a perda do tecladista Edgard Brito.
Para celebrar essa marca histórica de três décadas de carreira, o Tuatha de Danann retorna a Belo Horizonte para um show especial. A apresentação está agendada para sexta-feira, 3 de julho de 2026, no Mister Rock, casa de shows tradicional da capital mineira. “Em entrevista ao Casal Metal, conversamos com Bruno Maia, vocalista e fundador do Tuatha de Danann, que demonstrou grande entusiasmo com a apresentação na capital mineira para celebrar essas três décadas dedicadas à música.” O repertório promete um apanhado da extensa discografia da banda, resgatando as canções que marcaram o público ao longo desses 30 anos.
Leia a entrevista completa:
As Origens do Tuatha de Danann e a Falta de Internet
Casal Metal: Bruno, misturar música tradicional irlandesa com heavy metal no interior de Minas Gerais na década de 90 era uma aposta muito fora da curva. Como essa ideia surgiu e o que deu a vocês a convicção de que essa mistura daria certo?
Bruno Maia: Cara, na verdade, é bom lembrar que não tinha internet! Cê vê, é muito doido, né? Não dá nem pra conceber. Eu não consigo nem falar véi, como é que rolava antes, né? Quer dizer, eu lembro só de pensar assim: o bicho era doido. Pensando nessa atividade de lembrar, parece que era mais difícil do que realmente era, mas porque era tudo via correspondência, era carta, biblioteca…
Aí, vamo lá. O que aconteceu: eu gosto de música celta desde novo, desde o final da infância pra minha adolescência, e toco desde a infância também. Eu nasci em Belo Horizonte, vim pra Varginha, e quando eu vim pra Varginha já vim pra cá com guitarra, já tinha um tanto de música pronta caminhando, que eram umas músicas meio rock, meio heavy metal. Aqui conheci uma galera que a gente montou a banda. Era de Death Metal, eu tinha treze anos já. Com 13 anos cê é muito novinho, então é adolescente. Quando eu fiz 14 já era 1995. Meu gosto musical já era outro. Eu já tava gostando dos Death Metal, dos Doom, desses trem tudo, só que eu já tava gostando de um som mais melódico. E aí quando a gente foi mudar, falou assim: “Ah, vamo fazer Death Metal mais não, vamo fazer um som agora mais estampado”.
Aí veio a ideia: “Vamo parar de falar de morte, esses trem também, né, cara de doido?”. Eu falei: “Cara, um trem que eu gosto com força: eu gosto muito do povo celta, da Idade Média, essas coisas assim”. Falei: “Então vou fazer isso”. E aí começamos, pelo menos na parte lírica e temática, a ir pra esse lado. Comecei a estudar mais, pesquisar mais, unir essa coisa. A minha vida era a música e a minha área de interesse era essa coisa celta. Foi juntar duas paixões pra fazer a banda acontecer. E com o tempo, foi conhecendo mais a música irlandesa mesmo, a música celta. Foi natural a banda ir pra esse lado, mudamos de nome pra Tuatha de Danann e aí foi.
Cara, às vezes conseguia material tanto de música quanto literário no correio. Mandava carta, tipo à Embaixada da Irlanda, que achava alguém que me mandava aquele calhamaço de xerox de enciclopédia, fitinha com um tanto de música. Aí depois chegou o CD, foi popularizando tudo, aí mudou, mas no começo era difícil.
Casal Metal: Informação era banca de revista e olhe lá, né?
Bruno Maia: Pois é, mas cê não ia ter informação de coisas celtas. O que cê precisava, o que cê tinha interesse, não tava lá. Aí eu fazia o quê? Eu morava em BH antes, eu tinha a biblioteca da escola, tinha a biblioteca do clube que eu frequentava… Quando eu ia pra casa dos meus avós, eu ia nas bibliotecas das escolas, biblioteca pública, pegando verbete de enciclopédia. Tudo que tinha de celta, de Irlanda, de gauleses, sabe? Fazer aqueles papéis de carta de coisa celta, um trem muito doido.
Fantasia vs. Crítica Social e Política nas Letras
Casal Metal: Muitas das letras do Tuatha exploram o folclore europeu, mas vocês também já trouxeram críticas sociais e conexões com a nossa realidade. Como você equilibra o escapismo da fantasia com as mensagens do mundo real nas composições?
Bruno Maia: Não dá para equilibrar mais, né (risos)? Antigamente, quando a gente começou, a gente era muito novo, então realmente era essa coisa cantando mitos e lendas, e questões que tinham muito a ver com o folclore irlandês principalmente. Com o tempo a gente foi mudando. Vez ou outra a gente salpicava uma reflexão mais voltada pra ecologia, pra natureza — que querendo ou não é fazer política também, né? Era questão de questionar o mercado, a selvageria desse capital predatório. E chegou um ponto depois, cara, que não teve como a gente ficar… eu não conseguiria mais ficar falando de fada, de bardo, de deuses celtas com o que tava acontecendo aí.
Aí eu não soube equilibrar mais não. Eu fui pra esse lado de muita crítica social. Fizemos muita música contra o Bolsonaro na época da pandemia. A gente tem uma volta pra Irlanda no disco que a gente fez na pandemia (In Nomine Éireann), que tem muita música irlandesa que fizemos várias versões, mas o doido é que a própria Irlanda foi um país que sofreu os horrores da colonização por séculos. Foi um dos primeiros países colonizados pela Inglaterra, e eles sofreram toda essa brutalidade: expropriação, perseguição, proibição de língua, de religião, o caramba a quatro. Acabou que tinham músicas tanto exaltando os rebeldes contra a tirania, quanto salteadores de estrada. E a gente aproveitou pra ir colocando coisas de trabalhadores, como a The Molly Maguires. Esse disco foi massa porque a gente conseguiu condensar isso aí mantendo a cara da banda. O mais inusitado: uma banda do interior de Minas Gerais cantando coisas da Irlanda, um bando de caipira!
Depois a gente lançou o último disco, The Nameless Cry, um disco totalmente social. Nós não somos uma banda panfletária de forma alguma, mas se alguém pegar só o nosso último disco pra ler as letras, talvez vá pensar que somos uma banda essencialmente política, o que não somos. Porém, a gente sentiu necessidade de falar também, é a nossa realidade acontecendo. E a pessoa falar que “não tem que misturar música e política”… eu respeito, mas discordo totalmente. Como se o heavy metal, a música rock and roll — ainda mais num país do terceiro mundo, um país pobre — estivesse à parte! Como se a política não fosse influenciar no preço da corda de guitarra, na turnê que cê vai fazer, na gasolina, no arroz, no preço do ingresso! Até na possibilidade da banda que cê gosta vir tocar no Brasil ou de você fazer uma turnê fora.
O Multi-instrumentista e os Projetos Paralelos
Casal Metal: Sendo um multi-instrumentista que toca flauta, bandolim, violão e guitarra, de onde costuma partir a semente de uma nova música? É o riff que pede um arranjo folk, ou a melodia tradicional que depois ganha o peso do metal?
Bruno Maia: Assim, não é que eu toco esse tanto de coisa… eu gravo muita coisa, toco um pouquinho de um tanto de instrumento, só que eu não domino quase nenhum deles! Como eu sempre fui muito ligado, e um pouco avacalhado com a disciplina pra estudar… Eu toco violão desde os 7 ou 8 anos. Se eu tivesse tido 10% de disciplina de dedicação, eu ia ser um monstro! Eu toco guitarra, banjo, bandolim, bouzouki, as flautas, só que eu nunca fui pilhado em ficar tirando música, ficar praticando pra ser um exímio instrumentista. É até uma frustração, eu poderia resolver melhor várias ideias se estudasse mais.
Eu sempre ficava querendo criar música, viajando nas ideias. Então a inspiração vem dessas doideiras: eu pego um bouzouki, um bandolim, uma viola caipira e a música vem. A magia pra mim sempre esteve em poder criar uma música e falar: “Putz, nossa, isso aqui é legal, quero compartilhar com o povo”. Se você me botar pra tocar numa roda de viola ou numa jam de guitarristas onde cada um vai tocar um compasso de solo fritando, eu vou apanhar pra caralho! O que me inspira mesmo é ficar pirando nas músicas e construindo esses mundos meio doidos. Os instrumentos servem mais pra atender essas minhas vontades e devaneios.
Casal Metal: Além do Tuatha, você tem projetos como o Braia e o Kernunna, que exploram sonoridades mais acústicas ou progressivas. Como esses projetos paralelos ajudam a ‘limpar a mente’ e o que eles trazem de volta como influência para o Tuatha?
Bruno Maia: Pois é, o Kernunna foi um disco só, infelizmente. Surgiu quando o Tuatha deu uma parada. As músicas que estão no Kernunna eram músicas que iriam ser o próximo disco do Tuatha. Tanto que o Kernunna é bem mais progressivo. O Tuatha tava naquela onda. E o Braia eu já tinha feito o primeiro disco antes.
Acho que chegou num ponto em que foi muito progressivo. E isso que cê falou de limpar a cabeça é real: eu limpei essas coisas mais acústicas e progressivas, tanto que o próximo disco do Tuatha (Dawn of a New Sun) já foi mais pesado, mais direto pro rock e pro metal, muita guitarra e menos coisa acústica. O Kernunna ajudou a lavar a casa!
E o Braia hoje tá mais regional, de viola, música brasileira. E um projeto que cê não citou, mas eu lancei a trilha sonora de um game: Tales of Shadowland. Fui contratado para fazer canções pros personagens ou atmosferas. Elas ficaram parecendo um Tuatha acústico, bem medieval. Acabou que serviu de “desova” pra colocar essas coisas acústicas e medievais, e deixou o caminho livre pra que o The Nameless Cry (do Tuatha) viesse super pesado!
Desafios do Show ao Vivo e a Cena Atual do Rock
Casal Metal: A música de vocês é rica em camadas de estúdio, com diversos instrumentos tradicionais. Qual é o maior desafio na hora de transpor toda essa complexidade sonora para a energia caótica e intensa de um show ao vivo?
Bruno Maia: Cara, sendo sincero, acho que não falta nenhuma frase no show. No disco tem música com três camadas de teclado pra ambiência, ou flauta dobrando com violino ou gaita de foles. Às vezes não dá pra eu fazer a flauta dobrando porque tenho que tocar guitarra e cantar, mas todos os temas e melodias principais estão lá, seja na flauta ou no violino. A gente tem um violinista fixo.
As nossas músicas não são tão cheias de elementos a ponto de precisarmos de VS (playback) ou base pré-gravada. A gente toca tudo na unha mesmo! A música já é composta pensando no show: “aqui vai precisar de alguém fazendo esse tema”. Antigamente a gente colocou um sexto membro pra suprir isso (como gaita de foles) pra que eu pudesse fazer a flauta dobrando com o banjo, por exemplo. Mas nunca foi um problema na execução ao vivo.
Casal Metal: Olhando para o cenário rock e metal de Minas Gerais de quando vocês começaram até os dias de hoje, com novos festivais e casas de show surgindo, o que você sente que melhorou estruturalmente e o que talvez a cena tenha perdido?
Bruno Maia: Cara, não querendo parecer velho saudosista, mas eu não vejo tanta melhora não. Sente-se a dificuldade de renovar o público. O público envelheceu com a banda. É uma realidade que eu vivencio, inclusive por ter organizado o Roça ‘n’ Roll por quase 20 anos.
Claro, houve uma revolução tecnológica maravilhosa pra consumir e gravar música. Tá muito mais fácil gravar com qualidade e jogar nas plataformas de graça. O problema é a partir daí: como ser visto? Se a gente fosse começar o Tuatha hoje do zero, a gente não teria condições. Antes existia uma cena underground e gravadoras que investiam pra banda rodar. Hoje, se você não tem grana pra impulsionar postagem, fazer vídeo, foto e comprar espaço, a banda não gira. O mundo tá nas suas mãos pra escutar o que quiser (como aquela banda The Hu da Mongólia), mas pra quem produz é bem mais difícil.
E tem uma polêmica: hoje, os lugares que abrem as portas pro rock só querem banda cover. Música autoral é muito difícil. Eu entendo o dono da casa, o cover leva público, mas é complicado pra caramba. No interior é ainda pior, rola cover de classic rock (Beatles, Pink Floyd, AC/DC) e só.
Casal Metal: Vocês já tocaram em grandes palcos na Europa, berço da cultura que inspira a banda. Como é a recepção do público europeu ao ver brasileiros tocando a música tradicional deles com tanta maestria?
Bruno Maia: Quando fomos, foi do caralho! A gente tinha uma gravadora na França e o nosso álbum tava indo muito bem por lá. Fomos tocar na França (onde fizemos um show sold out em Paris como headliners) e na Alemanha, no festival Wacken (2005). A galera pirava, achava doideira. E não tinha tanta banda de Folk Metal grande como hoje (como Korpiklaani, etc). Foi tão legal que a gravadora francesa chegou a lançar o meu disco do Braia em português lá!
Cinema, Inteligência Artificial e o Futuro
Casal Metal: Sobre o documentário “Ambrósio, rei do Campo Grande: o rei esquecido de uma história roubada que ainda ecoa”, como surgiu essa ideia?
Bruno Maia: Meu primeiro trabalho no audiovisual foi em 2011, um documentário sobre Os Sete Orelhas (um personagem histórico do Sul de Minas, ali por Lavras). Enquanto eu fazia esse, um amigo me apresentou a história do Ambrósio e eu fiquei fascinado e frustrado. Fascinado por saber que em Minas Gerais teve um líder quilombola que desafiou a coroa portuguesa e chefiou milhares de pessoas no século XVIII; e frustrado por causa do apagamento histórico dessa história fantástica. Eu queria que o povo conhecesse. O filme do Sete Orelhas tá no YouTube (cheguei a tirar um tempo por achar meio mambembe, mas depois assumi e botei de novo). O do Ambrósio saiu agora!
Casal Metal: O uso de Inteligência Artificial na música tem gerado debates intensos. Qual a sua opinião sobre o uso dessas ferramentas na composição e produção musical? Você já utiliza algum recurso de IA em seus projetos e em quais circunstâncias você acredita que essa tecnologia seja uma aliada válida da criatividade artística?
Bruno Maia: Na parte visual, sim. No encarte do último disco do Tuatha tem imagens que eu mesmo fiz brincando com IA, pirando nas ideias. Mas na música, não. O que eu ouço gerado por IA me parece muito genérico. É bem feitinho, mas eu sinto falta de alma, saca? Cê ouve e pensa: “tá, legalzinho”, mas eu não vou querer ouvir de novo, não vai me emocionar, não cria vínculo de fã. É igual quando um estilo fica muito na moda e surgem cinquenta mil bandas iguais sem “aura”.
Encerramento e o Show em BH
Casal Metal: No dia 3 de jul. de 2026, vocês se apresentam em Belo Horizonte. Sendo uma cidade com uma cena metal tão histórica e exigente, como vocês estão preparando o setlist e a energia para essa apresentação específica? Há algo de especial ou algum elemento surpresa planejado para o público nessa data?
Bruno Maia: Tá chegando! Nos últimos um ano e meio a gente só fez show acústico, então esse agora é a nossa volta pros shows elétricos! A gente não muda tanto o setlist pra manter aqueles clássicos pra quem nunca viu, mas nesse show colocamos umas músicas antigas que não tocávamos há anos. É um show que contempla todas as nossas fases.
Casal Metal: Para encerrar, que tal deixar um recado especial para os fãs que estarão presentes no Mister Rock, em Belo Horizonte, no dia 3 de julho?
Então, o recado é: vamo fazer esse show elétrico, tamo super empolgados! Pensamos num set que vai agradar todo mundo, do começo ao fim, pra bater cabeça e dançar. Quem for e gostar da banda não vai se arrepender, e quem não conhece é um convite: cê pode se surpreender! Às vezes a pessoa acha que é só banda de fadinha, mas tem peso também.
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