A inteligência artificial na indústria musical: Entre a automatização e o valor do ofício humano

Revolta de músicos, declarações polêmicas e ações judiciais marcam o novo embate ético na indústria fonográfica
Inteligência Artificial
Inteligência artificial na música. Créditos: Brunno Salgado

Não é novidade que a IA (inteligência artificial) é utilizada para facilitar vários tipos de trabalhos. Em setores corporativos e industriais, a tecnologia tem sido integrada para a automação de processos repetitivos e a análise de grandes volumes de dados. Empresas utilizam algoritmos para processar informações e executar tarefas técnicas que antes dependiam exclusivamente da intervenção humana manual.

A implementação dessas ferramentas traz desafios éticos e práticos, incluindo a discussão sobre a necessidade de regulamentação governamental. Além disso, observa-se um impacto direto no mercado de trabalho, exigindo adaptações nas funções e nas competências profissionais demandadas pelas organizações.

Na música não é diferente: ferramentas de IA, como Suno e Udio, têm sido empregadas não apenas na composição e gravação, mas também na criação de artistas virtuais e álbuns completos. Essa evolução levanta questionamentos complexos sobre direitos autorais, uma vez que a autoria de obras geradas por algoritmos ainda carece de uma definição jurídica clara. Diante disso, intensifica-se a necessidade de debates legislativos globais para regulamentar a propriedade intelectual desse tipo de conteúdo.

O uso dessas ferramentas de IA tem provocado intensos debates na comunidade musical online. Um video de uma entrevista ao canal 20VC, apresentado por Harry Stebbings, Mikey Shulman, CEO da Suno faz uma declaração polêmica sobre a composição de música:

“Não é muito agradável fazer música hoje em dia. Leva muito tempo. Exige muita prática. Você precisa ficar muito bom em um instrumento ou muito bom em um software de produção. Eu acho que a maioria das pessoas não aproveita a maior parte do tempo que passa fazendo música”, declarou Mikey. Em resposta, Harry ponderou:

“Você não acha que isso é como correr? É difícil correr, é doloroso correr, você não curte particularmente, mas você ama correr. E você fica bom nisso, você melhora nisso, e se você conversar com corredores, eles amam correr.” O executivo, então, complementou:

“A maioria das pessoas desiste dessa busca porque é difícil. Eu acho que as pessoas que você conhece que correm… essa é uma seleção da população altamente tendenciosa que se apaixonou por isso.” 

O baterista e criador de conteúdo Jorge Garrido, conhecido como El Estepario Siberiano, reagiu à declaração polêmica de Mikey Shulman. No vídeo, Jorge critica músicos e produtores que, motivados por dinheiro, promovem inteligências artificiais que estão destruindo a própria indústria musical. Ele aconselha os iniciantes a focarem na paixão e na jornada da arte, alertando que o verdadeiro sucesso não está em atalhos ou fama. 

E por fim, critica os gigantes da tecnologia por roubarem o trabalho de gerações de artistas para treinar essas máquinas visando apenas lucro. Por fim, há uma forte convocação para um boicote total contra essas ferramentas e contra qualquer profissional que as utilize ou promova.

Em uma entrevista ao canal da Billboard, a jornalista Kristin Robinson questiona o executivo sobre sua declaração anterior. Mikey responde:

“Sim, eu disse isso. Eu realmente queria ter escolhido palavras diferentes. As pessoas que me conhecem sabem que eu obviamente me divirto muito fazendo música, e toco música todos os dias, não apenas no Suno, mas também instrumentos. O ponto em que eu estava tentando chegar é que há muita monotonia na produção musical. E sim, essa dificuldade é uma parte importante, mas existe potencialmente um tipo diferente de dificuldade que você pode enfrentar para aprimorar sua habilidade.

Sabe, alguém me perguntou recentemente: ‘As pessoas ainda vão ter que gastar 10.000 horas aprendendo seu ofício?’. E a resposta é: 100%. O que você fará nessas 10.000 horas talvez seja muito diferente daqui a alguns anos em relação ao que é hoje, mas, é claro, você ainda terá que fazer isso se quiser ser o melhor no que quer que esteja tentando ser.”

A Realidade da Música Gerada por IA

O produtor musical e influenciador digital brasileiro Felipe Vassão publicou um vídeo analisando a evolução da audiência de artistas gerados por inteligência artificial, comparando o número de ouvintes no momento de seu lançamento com o cenário atual.

Felipe rebate a afirmação de que a inteligência artificial está dominando as paradas musicais, classificando essa ideia como uma falsa narrativa frequentemente usada por “gurus” da tecnologia para vender cursos enganosos na internet.

Ele ainda lista diversos exemplos de “personagens de IA” (como The Velvet Sundown, Sienna Rose, Xania Monet e o brasileiro Hikari de Jesus) que atingiram picos expressivos de milhões ou milhares de ouvintes mensais, mas logo em seguida perderam mais da metade do público. 

Citando especialistas, o produtor argumenta que o alto número de reproduções no Spotify não bate com o baixo engajamento em redes como o Instagram. Isso indica que o sucesso inicial é impulsionado pelo uso de bots e pela mera curiosidade do público, e não por fãs reais.

Por fim, a IA falha em se sustentar no mercado porque a música é feita para conectar pessoas reais. Sem essa essência humana, os projetos gerados por IA acabam “flopando” rapidamente. 

Confronto Jurídico: Independentes contra a IA

O setor musical enfrenta um movimento jurídico significativo liderado por criadores independentes, organizados pelo Top Music Attorney. A ação coletiva busca representar artistas cujas obras foram utilizadas por plataformas de inteligência artificial sem a devida autorização, visando proteger um segmento frequentemente desassistido pela indústria tradicional.

As alegações centrais giram em torno do uso de dados de treinamento não licenciados, apontando que Suno e Udio construíram seus sistemas mediante a raspagem e reprodução de milhões de composições protegidas. O processo cita violações diretas de direitos autorais e da Digital Millennium Copyright Act (DMCA), sustentando que as plataformas contornaram bloqueios tecnológicos para coletar arquivos de áudio. Além disso, a ação solicita indenizações que podem atingir US$ 150 mil por obra violada e o fim do uso não autorizado de conteúdo.

Paralelamente, o cenário jurídico é marcado pela atuação das chamadas “Big Three” — Sony, Universal e Warner. Enquanto algumas destas gravadoras celebraram acordos de licenciamento com as startups de tecnologia, alterando suas políticas para modelos de uso autorizado, a Sony Music permanece como a única major a manter litígios ativos contra ambas as empresas. Essa disparidade evidencia a diferença de estratégias e interesses entre os grandes conglomerados e a classe artística independente.

Mesmo diante das movimentações das grandes corporações, a ação coletiva dos artistas independentes segue avançando nos tribunais. O caso continua a enfrentar desafios jurídicos complexos, especialmente no que tange às alegações sobre a coleta de dados provenientes do YouTube. O desfecho dessa disputa promete ser um divisor de águas para a definição dos direitos de propriedade intelectual na era da produção musical algorítmica.

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